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25/10/2008

A adopção do cão Mofli.

(Fonte: Expresso «» Cantinho do Smith) Foi abandonado, mas prefere brincadeira aos mimos. Só aprende o que lhe dá prazer e não é por falta de insistência do dono. É que o Mofli não é um cão como os outros. Ou talvez seja apenas um pouco mais alucinado. Em mais de um ano à minha guarda, o Mofli só aprendeu o que lhe interessa. Pergunto-lhe pela meia e lá vai ele, a cheirar o chão até encontrar o pedaço de tecido esfarrapado que, outrora, se chamava meia. É o seu brinquedo favorito mesmo que, no cesto, jazam bolas e uma galinha depenada de plástico. Basta dizer a palavra rua no meio de uma frase para se empinar na porta. Ao "toma" responde com o rabo a girar com uma ventoinha. Já sabe que dali vem petisco. Vi o Mofli pela primeira vez numa fotografia, enviada por email. O companheiro de uma colega e amiga tinha-o encontrado a cirandar num supermercado, com uma patinha doente. Não foi amor à primeira vista. As orelhas eram maiores que o focinho, o rabo interminável e estava magrinho, muito magrinho. Mesmo abandonado, não tinha o olhar triste, carente, dos cães de rua. Havia um brilho de loucura no cão. Não estava errado. O Mofli, um arraçado de podengo, tem a mania que é gente, e da grande. Adora pessoas, empina-se, lambuza e, normalmente, não quer afagos mas brincadeira. Com os da sua espécie, é outra conversa. Um dia, num passeio matinal pelo quarteirão, ao dobrar uma esquina, vi-o ficar nervoso, a rosnar. À nossa frente estava um pitbull preto sem coleira. O Mofli ladrou-lhe, como faz com todos os cães. Mas a fera que o perscrutava não estava para brincadeiras. Sem que eu tivesse tempo de reagir, fincou-lhe as presas no pescoço, sacudiu-o e só o largou com uns pontapés no lombo. O Mofli sentou-se a um canto, libertou as glândulas anais e um fedor a peixe podre penetrou-me a roupa enquanto corria com ele para o veterinário. Pela primeira vez, vi-o indefeso, numa tristeza e num medo tão grande que dava dó. Ficou fino em menos de nada. Foi operado no Hospital Veterinário de S. Bento a uma vértebra partida e uma semana depois já pulava do sofá para a cama, uma espécie de rally diário. Era o terror do hospital. Raio-x só com doses cavalares de sedativos e apenas o dono tinha autorização para lhe atar o açaime. Numa visita de rotina, o cirurgião ficou tão compadecido com o meu sofrimento que lhe receitou uma embalagem de Xanax canino. O medicamento nunca fez efeito. Nem fará. Quando alguém entra cá em casa, o Mofli atira-se às bainhas das calças. Só pára quando leva uma festa. É capaz de passar uma noite a lambuzar-me o rosto. E quando termina o serviço de limpeza, corre para a meia, para brincar a uma espécie de jogo da corda com o dono. Gosta de medir forças. E, até agora, tem ganho. Ou não fosse mais louco do que eu.
Rss
Treino de Cães ao Domicílio «» Casa do alto