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05/05/2008

“Cães que dissipam o Escuro”

(Fonte: Alvor de Sintra ) Vítor Costa é uma das figuras em estaque na obra “Cães que dissipam o Escuro”, escrita por quatro alunos da Escola Secundária Ferreira Dias, em Agualva. Cátia Silva, Joana Silva, Yan Yang e Tiago Gonçalves incluem no livro cujas receitas revertem para Clube Português de Utilizadores de Cães Guia (CPUC), uma entrevista com o educador de cães-guia, de que o Alvor de Sintra reproduz excertos, com a autorização dos autores.   Há quanto tempo é educador de cães-guia?   Sou educador de cães-guia desde 1999. Foi gratificante a formação que obteve em França?   “Apesar de ter sido difícil e dolorosa, foi uma experiência extremamente gratificante. Um dos motivos que me levou a ir para França, foi não só o facto de ter uma licenciatura em relações públicas e marketing, que nunca pus em prática (teve um estágio na faculdade mas nunca realizou nada na sua área), mas também ao estar desempregado enviei o meu curriculum para muitos locais e entretanto surgiu a hipótese de uma formação em França. O estudo da deficiência (revelou ser um facto que o fascina bastante e o tentar e poder ser útil a alguém que necessita da sua ajuda o faz sentir completo), bem como toda a questão do lado animal foram a minha motivação para aceitar esta oportunidade. Foi gratificante porque, em três anos, conheci pessoas da mais variada ordem social e cultural, conheci pessoas muito interessantes, sítios maravilhosos, pessoas que me ensinaram muito (tendo aprendido diversas coisas) e a quem lhes pude transmitir, de certa forma, alguma coisa (“espero eu” - sorri) sendo pessoalmente muito gratificante. Enquanto formação académica/curso aprendi muito sobre assistência, sobre o animal mas é uma profissão onde estamos sempre em mutação, isto é, temos de estar sempre a ler, a aprender e, por essa razão, por vezes vamos para outros países aprender novas técnicas e novas formas de trabalhar”. .Quais as principais técnicas que são utilizadas para treinar estes cães? “A aprendizagem de um cão baseia-se em três fases diferentes e bem distintas. A primeira consiste no conhecimento/interacção do educador com o seu cão onde se procura conhecer o máximo do cão, interagir com ele, estabelecer uma relação afectiva e emocional de trabalho e onde se pretende compreender as características do mesmo. Em segundo lugar, vem a interacção técnica, isto é, o ensinamento de determinadas ordens (sendo aproximadamente 27) perante as quais o cão actua de uma forma específica e diferente. Após toda a educação das 27 ordens ocorre um processo de repetição. A terceira e última fase é chamada análise da capacidade de trabalho do cão. É aqui, que os educadores vão determinar se o cão, a nível técnico, já aprendeu tudo ou quase tudo e vão verificar se o cão tem a capacidade de colocar o que aprendeu em prática de uma forma segura, madura, responsável, de forma a garantir a independência, segurança e autonomia do cego”. .Como é o dia-a-dia de um educador do cão enquanto exerce a sua função? “É um dia muito rápido. Começa às 9h e não tem horas de terminar. Mas, efectivamente o seu horário é das 9h00 às 18h00. O trabalho de um educador é muito intenso, porque, no caso de Vítor Costa, tem sempre um universo onde trabalha com quatro a cinco cães por dia (num dia normal). Porém, a sua tarefa não passa apenas por isso, tem também de ser responsável pelas suas famílias de acolhimento (dar formação e acompanhá-las), pelos cachorros que estão nessas famílias, pela reprodução dos cães, avaliação dos mesmos, pela formação técnica dos diferentes níveis de cães que têm na escola (de personalidades diferentes), pela educação técnica desses cães e avaliação dos candidatos (avaliá-los para verificar se têm capacidades, de modo a ser possível serem portadores de cão-guia) e, posteriormente, tem de estar constantemente a acompanhar os cães que já foram entregues (34 cães entregues por parte deste educador). É um dia sem grandes brechas de descanso (afirma – “ Mas, muito sinceramente não é uma mensagem de altruísmo”), sendo um dia que decorre muito depressa. “Eu gosto de andar na rua e eu não sinto o meu dia a passar visto que cerca de 90% do meu trabalho é passado nas ruas das cidades de Coimbra, Mortágua, Tondela, Viseu e, andar na rua faz com que me sinta bem. Convivo com muitas pessoas e gosto imenso” (realçou Vítor). Durante esta questão abordou ainda o facto de que numa estrutura da Escola de Cães-Guia de Mortágua que é uma IPSS vive-se, não com dificuldades financeiras, mas sempre com limites muito bem marcados.  Por que razão a raça labrador é a escolhida? “Não são somente os labradores que são os escolhidos. No entanto, em Portugal, trabalha-se com esta raça, pois há muitos anos é a utilizada e garantem determinados resultados. Apesar de serem os preferidos, a escola de Mortágua tem Golden (é igualmente um Retriever) em famílias de acolhimento. Em França, Vítor Costa, trabalhou com Flech Cold, Pastor Alemão . “Se me perguntarem entre labrador e pastor alemão qual prefiro, sem dúvida, responderia o pastor alemão, pois identifico-me muito com o trabalho deste tipo de cães. Os cães não têm inteligência, porque inteligência é uma característica do ser humano, mas eu digo que têm uma capacidade de trabalho fora de normal. Eles ficam contentes só pelo facto de tu ficares contente com o trabalho desempenhado por eles, existindo uma relação muito intensa com o ser humano. Têm uma capacidade de iniciativa e trabalho muito boa e a dedicação faz com que nós retiremos muitas coisas boas.” – disse.  É necessário ressaltar que, tem de haver um laço muito grande com o cego e, mediante o resultado, a relação afectiva e emocional com o seu dono faz com que o desenvolvimento do trabalho comece a convergir e comece a melhorar dia após dia. Por todas estas características os labradores são os eleitos, em Portugal.” Existe preferência entre o macho e a fêmea? “Sim, 95 por cento dos cães-guia são sempre fêmeas. Porque normalmente as fêmeas têm uma capacidade de trabalho mais vincada e são muito mais versáteis que o macho. É muito mais fácil exigir delas (enquanto fêmeas) do que exigir dos machos. Os machos são mais impetuosos, teimosos, irreverentes, têm vínculos mais agarrados, tendências mais vincadas. Por outro lado, as fêmeas não são submissas, mas acatam mais facilmente as ordens e a hierarquia. A relação do cão-dono e cão-treinador é sempre baseada numa relação hierárquica e a fêmea aceita-a muito melhor que o macho”.  Já lhe aconteceu ter ficado demasiado afeiçoado a um cão de uma maneira que lhe custou bastante entregá-lo ao novo dono? “Sim, no início aconteceu bastante. Mas continuo a afeiçoar-me!”. No entanto, Vítor prometeu a si mesmo que iria gostar somente o suficiente dos seus animais, tanto para não os fazer sofrer, como para o próprio educador não entristecer. Referiu que, quando educou o primeiro cão, a Camila, não chorou à frente das pessoas (“Porque um homem não chora a frente das pessoas” – em tom de brincadeira), mas chorou e sentiu imenso ter de se separar da respectiva. O cão tem de sentir que se gosta dele para gostar das pessoas e, desta forma, os educadores têm que ter uma actividade e um manuseamento de forma a fazer com que o cachorro perceba esse laço de afectividade (“sem isso não se consegue tudo o resto” - assegurou). “Gostar só o suficiente foi a forma que encontrei para eu não sofrer, para ele não sofrer e para que a transposição de mim para o seu futuro dono fosse mais fácil.” Mesmo assim, por vezes não é fácil e, recorrendo ao exemplo do Noddy, explicou que este, inicialmente, andava sempre à sua procura (uma vez que não conhece o seu futuro dono, como tal, cria-se muito nervosismo e ansiedade nas suas cabeças). Reforçou mais uma vez que agora gosta o suficiente e que tem formas de o conseguir fazer (“Mesmo que algo me apaixone mais nesse cão, eu tenho de me retrair”).   O que poderia ser feito para se tornar possível a formação em Portugal? Isso poderia acontecer. No entanto, Vítor considera que se tiverem que investir, invistam naquela escola, visto que ficaria muito dispendioso construir uma nova escola e muito cara a formação. Por esta razão, inferiu que se deveria investir na Escola de Mortágua. Além disso, afirma que a escola de cães-guia enquanto IPSS e enquanto instituição tem sete anos, funciona em pleno e é constituída por uma equipa de oito pessoas onde se trabalha arduamente (oito pessoas assalariadas existindo várias a trabalhar de forma benévola, como voluntários). Desta forma, pelo facto de existirem inúmeras capacidades dos respectivos trabalhadores, gostariam de ter mais um ou dois educadores. Vítor Costa salientou que este não é um trabalho de linha de produção, sendo que, por vezes, ao fim de um ano, em que o cão está numa determinada família de acolhimento, ao fazer uma radiografia ao mesmo e ao verificar-se que tem displazia, o trabalho desenvolvido até ao momento vai para o “lixo”. Por fim, referiu que seria necessário aumentar a equipa de treinadores, devido a uma cada vez maior procura destes cães por parte dos invisuais mas, para que este aumento de pessoal ocorra, é indispensável a criação de uma base sólida e, num mundo capitalista como o nosso é, é necessário que exista bastante dinheiro para pagar o salário das pessoas empregadas. Desta forma, Vítor Costa afirma que “as coisas vão andando pouco a pouco”. Se o cão é treinado em Portugal e está habituado às instruções em português, o que aconteceria se este cão tivesse que ir desempenhar as suas funções na China? “É fácil, a pessoa chinesa teria de aprender 27 ordens em português.” O cão que aprendeu as ordens em português só obedece a ordens nesta língua. O primeiro cão guia existente em Portugal foi para um senhor que mora em Cantanhede, Coimbra (refere que Portugal não é só Lisboa e que tem muitas coisas lindas) e, esse senhor, Carlos Sobral (Vítor confessa que eram amigos) foi sempre uma pessoa muito entusiasta neste projecto. Segundo o educador, o primeiro cão-guia “português” chamava-se Rex. Morreu em 2000. Propuseram na altura ao seu dono uma formação canina no Canadá, desde 90 até 2000 e Rex permaneceu nesse país três semanas em estágio. Quando Carlos Sobral viajou até ao Canada para ir buscar o cão, este teve que aprender as regras em americano (27 ordens). Na pesquisa fornecida pela Dra. Ana Filipa Paiva (directora técnica e também veterinária), relativamente à educação deste tipo de animais, verificámos que em França os educadores foram sensibilizados para questões que envolvem a psicologia dos cegos. O que é que nos pode dizer sobre isto? “Na formação teórica grande parte da mesma foi nessa base. Resumidamente tu tens que saber o melhor possível como o cego pensa, sente, “vê” o mundo, para depois tu tentares usar uma linguagem interactiva e existir um feedback por parte do invisual. Eu para descrever um cruzamento de estradas a um cego, tenho de saber como é que este o vê/sente. Tenho de me basear em pontos de referência, som, espaço, forma do cruzamento, sentidos da orientação dos carros, etc. Eu tenho de saber como ele sente as coisas para depois eu transmitir e para mais tarde desenvolver o trabalho do cão face a isso. Atenção: depois, é necessário saber se estamos a trabalhar com um cego adquirido (que ficou cego por alguma razão) ou cego congénito (que já nasceu assim), pois são duas realidades completamente distintas. Depois temos de saber se é um cego com uma reeducação feita ou não, ou seja, se o cego independentemente da causa da sua cegueira, necessita de ir para uma instituição para saber como beber um café, cortar a carne, saber como se movimentar com a sua bengala, saber que está num sitio e quer ir para outro. Ir para uma instituição para o ajudar a encontrar um ritmo de marcha adequado, que ajude o cego a ter uma educação que o ajude a desenvolver os outros sentidos. Porque e que existem cegos em Portugal que preferem a bengala a um cão guia? “Nem todo o cego tem de gostar de cães. Atenção, há cegos muito bons com bengala, mas a autonomia e independência que o cão vai poder fornecer é muito diferente - afirma. Relativamente aos obstáculos, um cão olha e já sabe por onde tem de ir (demorando pouco tempo), um cego com bengala estaria perante um mesmo obstáculo muito mais tempo. Também não são só coisas boas, porque um cão tem um plano de vacinas, necessita de desparasitação, faz cócó e chichi fora das quatro paredes. Um cão vem, certamente à rua, às 22h e pode estar até as 10h da manhã na cama; mas se o cego é um daqueles sonolentos que gosta de estar até às 14h da tarde na cama (negativo, pode voltar para a cama, mas tem de tratar do seu cão primeiro - sorri). Após chegar a casa, um cego com bengala e que teve as dificuldades normais do dia a dia, coloca-a atrás da porta e acabou. Agora, é de salientar a integração social que um cego portador de cão-guia tem, e isto é muito importante. Em 34 cães entregues, eu fico sempre surpreendido com os testemunhos de cada invisual. Um cego que chega a linha de Sintra com uma bengala, não possui qualquer motivo para que tu o possas abordar. Um cão-guia é um veículo de comunicação! Há uma interligação com o social. A bengala cria uma barreira, o cão proporciona outras coisas. Os cegos gostam deste tipo de abordagem – sorri. Apesar de estarem a ser vigiados, estão a ser falados por uma razão positiva. Já não existe aquela frase habitual – coitadinho do ceguinho! Portanto, o cão-guia interage com o psicológico do cego, proporcionando uma abordagem extremamente positiva e transformando os muitos sentimentos do cego em alegria.
Rss
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